DISCURSO SOBRE A DIGNIDADE DO HOMEM

GIOVANNI PICO DELLA MIRANDOLA (séc XV), filósofo renascentista, escreveu entre outras obras Oratio de hominis dignitate (Discurso sobre a dignidade do homem), editada em português pelas Edições 70, livro que aconselho a ler. Para quem tem alguma forma de alergia à leitura deixo aqui alguns apontamentos.

Naquele tempo estava fora de questão pensar que o homem não fora feito por Deus e à sua semelhança. Assim, Giovanni Pico, dando asas à sua imaginação, coloca Deus a dizer a Adão após o ter criado:

– “Coloquei-te no meio do mundo para que daí possas olhar melhor tudo o que há no mundo. Não te fiz celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tiveres seguramente escolhido. Poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo”.

Numa dissertação efectuada por Bruno Amaro Lacerda (Mestre e Doutor em Filosofia do Direito pela UFMG), este escreve o seguinte:

– A felicidade do homem, diz Giovanni Pico, é “ser aquilo que quer”. As bestas, ao contrário, desde o momento em que são concebidas, trazem consigo, no ventre materno, “tudo aquilo que depois serão”. Algo semelhante ocorre com os espíritos superiores (como os anjos), que desde a sua criação são o que eternamente serão. No homem, ao contrário, estão presentes as sementes de tudo, que crescerão e frutificarão “segundo a maneira de cada um as cultivar”. Conclui, então, Giovanni Pico:

– “Ao homem nascente o Pai conferiu sementes de toda a espécie e germes de toda a vida, e segundo a maneira de cada um os cultivar assim estes nele crescerão e darão os seus frutos. Se vegetais, tornar-se-á planta. Se sensíveis, será besta. Se racionais, elevar-se-á a animal celeste. Se intelectuais, será anjo e filho de Deus, e se, não contente com a sorte de nenhuma criatura, se recolher no centro da sua unidade, tornado espírito uno com Deus, na solitária caligem do Pai, aquele que foi posto sobre todas as coisas estará sobre todas as coisas”.

Ao terminar este texto e com a convicção que alguns espíritos mais livres irão ler o livro, deixo aqui uma última pérola escrita por Giovanni Pico:

– “A liberdade é o dom que o homem recebeu. A sua dignidade está em saber usá-la bem, transformando o mundo e a si mesmo em direcção ao melhor; Que a nossa alma seja invadida por uma sagrada ambição de não nos contentarmos com as coisas medíocres, mas de nos anelarmos às mais altas, de nos esforçarmos por atingi-las, com todas as nossas energias, desde o momento em que, querendo-o, isso é possível”.

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